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Poesia Sertaneja

  • idadecronica
  • há 5 dias
  • 3 min de leitura

Decidi escrever sobre algo que, à primeira vista, dispensa explicações: a música sertaneja. Mas cronistas adoram destrinchar o óbvio com entusiasmo, então aqui estamos!

 

A música sertaneja é poesia popular no seu estado mais bruto e universal. Ela traduz sentimentos complexos em expressões curtas e marcantes, que logo viram jargões e ultrapassam o universo do amor e suas desilusões. Se você nunca ouviu um modão e pensou "isso aqui sou eu", ou está negando a verdade ou faz parte da rara minoria brasileira que ainda resiste (mas não escapa) ao sertanejo.

 

Vamos dividir o boi em partes, sem trocadilhos... Juro que não pensei na fazenda, no abate do “coitado do boi” lá em Goiânia ou Palmas enquanto o rádio toca Henrique e Juliano. Juro mesmo??? Por falar neles, a dupla é uma ótima representante para a primeira parte da conversa: se tem um gênero musical que não tem medo de brincar com a língua portuguesa, esse gênero é o sertanejo. Nas músicas dos dois, você encontra palavras e expressões inventadas ou quase nunca usadas, como desbeijar minha boca, destirar a roupa, desamar, desfarreou meu coração e, a minha preferida, beijadamente calculado.

 

O sertanejo também é incomparável na criação de expressões para saudade (doída, butequeira, disfarçada em evidências, de fogão de lenha...) ou para definir relações complicadas (erro gostoso, curva da sua vida torta, probleminha que se gosta... até balde, isso mesmo, aquele que a gente chuta quando a raiva bate).

 

Além dessas palavras e expressões que a gente adota na vida amorosa, no trabalho e na vida social (sim, o agro é pop!), o sertanejo nos ensina que as frases certas podem dizer muito mais do que aparentam — ou, ao menos, dizer de um jeito que a gente grava melhor.

 

Marília Mendonça soube como poucos explicar que o vácuo é um “não” elegante com o verso: "Não receber mensagem também é mensagem." Outra que adoro é "Você deu corda e o coração entrou na forca", perfeita para aquelas situações em que insistimos em algo que já tinha cara de problema. Tem essa do Gustavo Mioto: "Coração tem nada a ver com a boca", um jeito sertanejo de dizer que a boca falou, mas o coração não escutou — ou que justifica aquelas noites em que a gente cai na farra, mesmo sabendo que não é lá que deveria estar.

 

Sinto que poderia escrever infinitos parágrafos sobre a poesia sertaneja e sua fórmula incontestável de traduzir a alma brasileira, mas vou tentar me conter. Antes de terminar, quero ressaltar as importantes lições de autoestima e amor-próprio que nossos intérpretes vêm compartilhando por aí. Isso mesmo, ao contrário do pensamento generalizado de que o sertanejo é só sofrência, tem muito caldo de autoamor nessas canções. Os Barões da Pisadinha e a dupla Jorge & Mateus cantam essa: "Sair pode sair, beijar pode beijar... quero ver é me esquecer." Também em feat com Jorge & Mateus, Clayton & Romário têm as letras e trocadilhos mais divertidos que ouvi ultimamente: "Mas em menos de um mês, a gente tromba na rua e a minha felicidade tá mais feliz que a sua..." Essa serve para o amor superado, para a demissão superada, para a amiga que não era tão amiga assim… serve para qualquer volta por cima. E os sertanejos fazem questão de nos lembrar, sempre que podem, sobre as voltas que o mundo dá.

 

Neta de sertanejos que sou, escrever sobre a potência desse gênero foi uma viagem entre lembranças e diversão. Não foi só o entusiasmo de brincar com o óbvio que escreveu essas linhas, mas também a neta que cresceu ouvindo histórias sem saber que eram versões faladas das canções de um dos maiores compositores do gênero: Almir Sater. Ele canta o que a vida nos ensina nas conversas na varanda, no silêncio ao lado de quem amamos, no café coado e no queijo fresco ficando pronto. Ele escreve com a sabedoria de quem sabe que “ser capaz e ser feliz” é carregar o dom de ver no simples o que de fato importa. Talvez seja um dos maiores exemplos da nossa música sertaneja porque é sertanejo no jeito e na alma.

 

Para terminar, um minuto de canção para todos os compositores sertanejos — a grande maioria deles anônimos — que nos fazem aumentar o volume quando percebemos que, na voz de nossos intérpretes preferidos, o que eles escrevem é sobre o que ressoa dentro da gente. Talvez seja por isso que o tamanho do eco é sempre gigante.



Almir Sater, Henrique&Juliano, Jorge&Mateus, Marília Mendonça
Almir Sater, Henrique&Juliano, Jorge&Mateus, Marília Mendonça

 

 
 
 

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ISBN 978-65-01-21095-7

Ano de publicação: 2024

Impresso por: Fábrica do Livro

Distribuído por Amazon Brasil

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